sábado, 19 de junho de 2010

Argentina contra a rapa

A primeira fase da Copa começa a caminhar para o seu fim e já pode-se tirar uma conclusão que deve durar até o final do certame. Existem duas ideologias presentes no torneio: o fundamentalismo tático e o talento desordenado.

A primeira vertente é seguida por 31 seleções. Consiste em tocar a bola de lado insistentemente, evitar dribles, manter durante o maior tempo possível a posse da bola (afinal, assim não toma-se gol) e vez ou outra arriscar chutes e cruzamentos, afinal o gol também tem sua importância.

O talento desordenado, outrora seguido piamente pelos africanos, é a ideologia que hoje tem como líder o protagonista da Copa até então: Maradona. A defesa da argentina é uma mãe. Não tem laterais, apenas um volante, o eterno atacante adversário Demichelis e muito, mas muito talento do meio para a frente. Messi é mais da metade deste talento. Até agora, ele teve duas atuações apenas regulares para o seu futebol. A diferença é que o Messi regular é anos-luz melhor do que a grande maioria. Agüero, o reserva, esbanja habilidade. Tevez é a raça que o Brasil não teve em 2006. Higuaín, Milito e Palermo são garantias de bola na rede. Nada muito ensaiado. Verón e Di Maria também podem aparecer ali na frente, não há gesso tático.

Vulnerável, talentosa e imprevisível, assim é a tática do anti-técnico Dieguito.


Mas a dúvida é: quem está certo? Daqui a 3 semanas, qual será a ideologia vencedora?

Sorte que Copa do Mundo não é eleição.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Desabafo da Jabulani

Já me criticaram demais. Agora é a minha vez de falar.

Felipe Mello me chamou de patricinha. Mas convenhamos que esta ofensa não é necessariamente destinada a mim. Ele nunca gostou de ninguém da minha espécie. É um grosso, a verdadeira reencarnação do Cocito.
O Júlio César até tinha um pouco de razão ao me criticar. Eu realmente privilegio os atacantes. Mas, mesmo assim, viu quanto 0x0 e 1x0 tivemos nesta primeira rodada? Vou sugerir que aumentem as traves.
A Alemanha foi quem melhor me tratou. Quem diria? Justo os “frios brucutus” alemães. Demonstraram carinho e compreensão, me deitando na rede sempre que eu pedia.
Ao contrário dos “sambistas brasileiros”, que encarnaram o infeliz comercial Guerreiro e esqueceram a arte que encantou minhas antepassadas.
Disseram que a Itália me tratou mal. Eu não diria isso. Eles são tímidos quando chegam, mesmo. Depois se soltam.
Já meu melhor amigo, o Lionel, esse nunca perde a intimidade comigo. Me tratou com a cortesia de sempre. Eu que fui um pouco injusta. O nigeriano Vincent Eneyama toda hora roubava a minha atenção.
Holanda: ok. Foi educada. Inglaterra, um pouco antipática. Portugal e Costa do Marfim ficaram em cima do muro. Não arriscaram com medo que eu escolhesse um dos dois.
A França é comandada por um torturador meu. Prefiro ficar quieta para não sofrer retaliação.

A primeira rodada está acabando. Amanhã é dia de matar a saudade da minha querida Espanha e rever os simpáticos sul africanos. Tomara que a festa comece a esquentar.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Por que 64 jogos de futebol param a atenção do planeta?

Porque não são “apenas” 64 jogos de futebol. Copa do Mundo, por pior que seja tecnicamente, é história.

O confronto entre Suíça e Ucrânia, no Mundial da Alemanha, foi um dos jogos de futebol mais feios que eu já assisti. Um 0x0 mesquinho, besta, covarde. Mas se não fosse numa Copa, ninguém jamais teria dado importância a este drama da bola. Virou história.

A decisão de 90, em menores proporções, também foi horrível, decidida em um pênalti para lá de duvidoso. Mas isto já basta para que seja histórica. O quase frango de Pagliuca na final de 94, seguida de um beijo endereçado à trave: história. Zidane fez uma Copa de 98 medíocre, muito pior que a dele mesmo em 2006. Foi expulso, não teve destaque. Mas em um jogo, só um jogo de futebol, foi autor de dois gols de cabeça e isto bastou para sagrá-lo herói, campeão e o melhor jogador do mundo naquele ano. E, de fato, as duas cabeçadas tinham este poder. 2006 foi o oposto para o astro. Futebol fino, elegante. Mas outra cabeçada, desta vez um pouco diferente, transformou o gênio em vilão.

A história dos campos serve também como plano de fundo para enredos da vida de cada um. O filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” retrata bem este sentimento. Saindo da ficção, a biografia do Bussunda traz a Copa como um importante personagem, capaz de justificar uma doença escondida e até servindo como o triste palco para o fim da vida do humorista.

Na vida de anônimos, ela pode ter funções mágicas. Um cartesianismo meio “top 5 do Alta Fidelidade” faz com que eu divida todas as minhas memórias de acordo com as Copas. Nem sempre sei o ano em que algum fato ocorreu. Mas sempre sei entre quais Mundiais houve o acontecimento.

Ela transcende um torneio de futebol. A foto conjunta da seleção do Irã com a dos Estados Unidos em 98 traduzem isto. A possibilidade de uma nova união verdadeira entre brancos e negros na África do Sul – assim como na Copa de Rugby em 96 – também vão além dos 90 minutos de bola.



Às 11h, a história começa a escrever seu mais novo capítulo. Não me chame para almoçar.



terça-feira, 8 de junho de 2010

Motivos para torcer pela Argentina nessa Copa

O Brasil pode até merecer conquistar seu sexto mundial, mas 2010 não é o momento. Mais uma Copa agora vulgarizaria a conquista que a Seleção de 82 não conseguiu. Fora que, se for para escolher, aposto que o país prefere ganhar em 2014.

Mas então: quem merece levantar o cobiçado globo dourado na África do Sul?

Argentina! Sem dúvida nenhuma.

Assim como a Itália em 2006 e o Brasil em 94, os hermanos amargam 24 anos sem ganhar uma Copa. E esta de 2010 seria (ou será) um enorme serviço histórico para o futebol.

Messi como protagonista de um mundial aos 22 anos é algo mágico de se imaginar. Seu futebol encanta os olhos. É poesia escrita com pé e bola. No momento, nenhum outro é capaz de dar beleza à história do futebol assim como ele. Isso já é um argumento que me basta para torcer pelos argentinos. Mas tem mais: Maradona pode até ter jogado menos que o Pelé (eu acredito piamente nisso), mas é muito mais ídolo de sua pátria do que o nosso rei. Enquanto Pelé é herói, ideal e perfeito, Maradona é anti-herói. É louco, dionisíaco, erra e desperta paixão em um povo. No nosso futebol, só Garrincha pode ser comparado ao Dom Diego.

Agora imagine este ídolo de carisma inigualável voltar a sua seleção como técnico, desacreditado, arriscando sua aura santa, mas consegue dar a volta por cima e novamente sagra a Argentina campeã do Mundo? Eu sinceramente não consigo imaginar nada mais bonito para esta Copa.

Se bem que há 4 anos eu não imaginava nada mais bonito que o Zidane levantando a taça, passando-a para o lado e enfim pendurando a chuteira. Infelizmente não foi o que aconteceu e o Cannavaro foi o craque (?) da competição. Que não se repita.