A primeira Copa na África. A primeira vez que os dois últimos finalistas caem na primeira fase. É também a primeira Copa em que o mandante não avança. A primeira participação da Eslováquia sem Tcheca. A primeira vez que 4 sul americanos ficam entre os 8 finalistas. A primeira final de mundial com a presença da Espanha.Também é a primeira decisão sem Brasil, Argentina, Alemanha ou Itália. A primeira vez em que um europeu levantará a Copa longe de seu continente. Pode ter o primeiro jogador a fazer 16 gols em mundiais, caso o Klose faça 2 na próxima partida ou baixe um demônio no Villa e ele faça mais 8.
Se a Alemanha vencer o Uruguai, será a primeira seleção bi-terceira colocada.
Independente de quem vença a final, será a primeira conquista de um país que adora futebol.
2010. 80 Anos de Copa. E as novidades nunca acabam.
Que bom que eu voltei da Argentina antes deste jogo. Lá, eu vi gari brigando com mendigo para ver quem ficava com o lixo. Lá eu ouvi taxistas que não acreditavam na conquista desta Copa, mas como queriam. Um gol de Palermo para eles é como um título.
Um gol de La Pulga Messi, fiquei sem saber como é para os hermanos.
Hoje, acabou a chance do Maradona voltar a ser campeão mundial. Ele não é técnico. É um grande ídolo, mas não treinador.
A Alemanha foi cruel. Fez 1x0 no começo para, logo de cara, deixar os argentinos sentindo-se inferiores. Mas eles são bravos. Tevez é bravo. Vai para frente. Dá esperanças de que o empate pode sair.
Não pode. Klose faz 2x0. Acho que acabou... Mas não, vem a humilhação. 3x0. 4x0. Messi, o grande craque do futebol mundial atual, fez uma Copa fraca. Assim como Maradona em 82, com idade parecida. As lágrimas brotavam em seus olhos antes do fim do cotejo.
Lágrimas que não eram só dele. Eram de cada taxista que me falava que não acreditava em seu país. Lágrima de cada fã absoluto do Palermo. Lágrima compartilhada pelo gari e pelo mendigo, que por 90 minutos deram uma trégua. Lágrima de um país que se vestiu de azul e branco para esta Copa.
Que bom que eu voltei da Argentina antes deste jogo.
Eu considero a peleja disputada entre Uruguai e Gana uma disputa de quarto lugar da Copa. Vi como se fosse um jogo qualquer. Aquele esquecível, que veria para matar uma tarde de férias.
E o jogo começou seguindo os prognósticos. Mais conversava do que via o jogo. Até que no fim do primeiro tempo, a partida começa a ficar interessante após o gol de Gana.
Mas ainda nada que fizesse esse jogo merecer destaque. O gol do Forlán começa a transformar o confronto num belo jogo, regado à emoção.
Ainda nada histórico, mas já passava a prender toda a minha atenção.
Prorrogação. Mais um chopp. Aí vem coisa boa.
Chego a comentar que as duas equipes estão covardes demais para sair um gol. Não saiu, mas queimei a língua.
A defesa de mão do Suárez nos acréscimos do segundo tempo da prorrogação mostrou a loucura máxima, a tentativa de suicídio vinda do desespero de quem está prestes a morrer. Mas o Uruguai sobreviveu. O pênalti caprichosamente tocou na trave e fez do jogo dos despretensiosos um clássico das Copas.
Eu não tinha preferência neste confronto. Mas a partir deste momento, só fazia sentido o Uruguai passar. Do suicídio à glória.
Quartas de final. Zidane passeia frente a um Brasil estrelado e apático. Muita festa, muito oba-oba, muito samba e pouco futebol. Cadê a garra? Cadê a gana pela vitória? Fora Parreira. Que venha alguém linha dura, que acabe com essa palhaçada.
Dunga!
Assim como Parreira, sagra-se campeão da América e da Copa das Confederações.
Diferente de Parreira, não deixa ninguém chegar perto da seleção. Os jogadores precisam de concentração. Diferente de Parreira, não leva uma constelação para a Copa, e sim jogadores esforçados.
Como Parreira, sai nas quartas de final.
Com a cabeça erguida, é verdade. Sem vexame. Perdeu na bola e com honra. Mas perdeu.
Que sirva de lição e que em 2014 não haja nenhum extremismo. Porque a próxima Copa sim será realmente emocionante de ganhar. Ou você acha que Felipe Melo merecia ser campeão do mundo?
Os jogos históricos entre Brasil e Holanda começaram em 74, quando a Laranja Mecânica colocou o Brasil na roda de seu carrossel e eliminou os atuais campeões. Em 94, veio a vingança num jogo de imagens imortais. Primeiro, o Bebeto embalando seu filho recém nascido com a companhia de Romário e Mazinho, após o Brasil fazer 2x0. Mas a Holanda empatou. E então a épica bomba santa de Branco (que só estava em campo porque o titular Leonardo deu uma cotovelada inesquecível no Tab Ramos, dos EUA) colocou o Brasil na semi. Em 98, o tira-teima: Brasil de Rivaldo e Ronaldo contra Holanda de Kluivert e Bergkamp. 1x1. Pênaltis. E Taffarel resolve decidir em favor da seleção canarinho. Amanhã, os historicamente ofensivos Brasil e Holanda voltam a se enfrentar. Dessa vez, mais defensivos, feios e pragmáticos. Mas nem por isso menos competitivos e favoritos à Copa. Argentina e Alemanha possuem uma história ainda mais rica. São as únicas equipes a repetirem em duas Copas seguidas uma final. Em 86, no México, deu Argentina do Maradona. 4 anos depois veio a vingança numa das Copas mais feias da história. A final foi um jogo morno, decidido num pênalti muito, mas muito duvidoso. Já em 2006, foi um dos jogos mais legais da Copa. A Argentina saiu na frente e parecia que ia eliminar os mandantes do certame. Mas a Alemanha empatou e venceu nos pênaltis. Argentinos voltaram para a casa aplaudidos pela torcida. Esta deve ser a quarta de final mais bonita dessa Copa. Ambas jogam para a frente e têm brilho. A surpresa da semi sai de Gana x Uruguai. Ainda que bi-campeões, Uruguaios já não figuram mais na elite do esporte bretão. Gana é a salvadora da África na Copa. Nenhum dos dois será campeão. Mas Bulgária de 94, Croácia de 98, Coréia e Turquia de 2002 e Portugal de 2006 têm seus lugares na história. É isso que eles buscarão na partida. Para finalizar, o jogo óbvio: Espanha passa pelo Paraguai e avança como forte candidato ao título inédito. E nada de Copa América do Mundo. Aposto!
A primeira fase da Copa começa a caminhar para o seu fim e já pode-se tirar uma conclusão que deve durar até o final do certame. Existem duas ideologias presentes no torneio: o fundamentalismo tático e o talento desordenado.
A primeira vertente é seguida por 31 seleções. Consiste em tocar a bola de lado insistentemente, evitar dribles, manter durante o maior tempo possível a posse da bola (afinal, assim não toma-se gol) e vez ou outra arriscar chutes e cruzamentos, afinal o gol também tem sua importância.
O talento desordenado, outrora seguido piamente pelos africanos, é a ideologia que hoje tem como líder o protagonista da Copa até então: Maradona. A defesa da argentina é uma mãe. Não tem laterais, apenas um volante, o eterno atacante adversário Demichelis e muito, mas muito talento do meio para a frente. Messi é mais da metade deste talento. Até agora, ele teve duas atuações apenas regulares para o seu futebol. A diferença é que o Messi regular é anos-luz melhor do que a grande maioria. Agüero, o reserva, esbanja habilidade. Tevez é a raça que o Brasil não teve em 2006. Higuaín, Milito e Palermo são garantias de bola na rede. Nada muito ensaiado. Verón e Di Maria também podem aparecer ali na frente, não há gesso tático.
Vulnerável, talentosa e imprevisível, assim é a tática do anti-técnico Dieguito.
Mas a dúvida é: quem está certo? Daqui a 3 semanas, qual será a ideologia vencedora?
Já me criticaram demais. Agora é a minha vez de falar.
Felipe Mello me chamou de patricinha. Mas convenhamos que esta ofensa não é necessariamente destinada a mim. Ele nunca gostou de ninguém da minha espécie. É um grosso, a verdadeira reencarnação do Cocito. O Júlio César até tinha um pouco de razão ao me criticar. Eu realmente privilegio os atacantes. Mas, mesmo assim, viu quanto 0x0 e 1x0 tivemos nesta primeira rodada? Vou sugerir que aumentem as traves. A Alemanha foi quem melhor me tratou. Quem diria? Justo os “frios brucutus” alemães. Demonstraram carinho e compreensão, me deitando na rede sempre que eu pedia. Ao contrário dos “sambistas brasileiros”, que encarnaram o infeliz comercial Guerreiro e esqueceram a arte que encantou minhas antepassadas. Disseram que a Itália me tratou mal. Eu não diria isso. Eles são tímidos quando chegam, mesmo. Depois se soltam. Já meu melhor amigo, o Lionel, esse nunca perde a intimidade comigo. Me tratou com a cortesia de sempre. Eu que fui um pouco injusta. O nigeriano Vincent Eneyama toda hora roubava a minha atenção. Holanda: ok. Foi educada. Inglaterra, um pouco antipática. Portugal e Costa do Marfim ficaram em cima do muro. Não arriscaram com medo que eu escolhesse um dos dois. A França é comandada por um torturador meu. Prefiro ficar quieta para não sofrer retaliação.
A primeira rodada está acabando. Amanhã é dia de matar a saudade da minha querida Espanha e rever os simpáticos sul africanos. Tomara que a festa comece a esquentar.
Porque não são “apenas” 64 jogos de futebol. Copa do Mundo, por pior que seja tecnicamente, é história.
O confronto entre Suíça e Ucrânia, no Mundial da Alemanha, foi um dos jogos de futebol mais feios que eu já assisti. Um 0x0 mesquinho, besta, covarde. Mas se não fosse numa Copa, ninguém jamais teria dado importância a este drama da bola. Virou história.
A decisão de 90, em menores proporções, também foi horrível, decidida em um pênalti para lá de duvidoso. Mas isto já basta para que seja histórica. O quase frango de Pagliuca na final de 94, seguida de um beijo endereçado à trave: história. Zidane fez uma Copa de 98 medíocre, muito pior que a dele mesmo em 2006. Foi expulso, não teve destaque. Mas em um jogo, só um jogo de futebol, foi autor de dois gols de cabeça e isto bastou para sagrá-lo herói, campeão e o melhor jogador do mundo naquele ano. E, de fato, as duas cabeçadas tinham este poder. 2006 foi o oposto para o astro. Futebol fino, elegante. Mas outra cabeçada, desta vez um pouco diferente, transformou o gênio em vilão.
A história dos campos serve também como plano de fundo para enredos da vida de cada um. O filme “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” retrata bem este sentimento. Saindo da ficção, a biografia do Bussunda traz a Copa como um importante personagem, capaz de justificar uma doença escondida e até servindo como o triste palco para o fim da vida do humorista.
Na vida de anônimos, ela pode ter funções mágicas. Um cartesianismo meio “top 5 do Alta Fidelidade” faz com que eu divida todas as minhas memórias de acordo com as Copas. Nem sempre sei o ano em que algum fato ocorreu. Mas sempre sei entre quais Mundiais houve o acontecimento.
Ela transcende um torneio de futebol. A foto conjunta da seleção do Irã com a dos Estados Unidos em 98 traduzem isto. A possibilidade de uma nova união verdadeira entre brancos e negros na África do Sul – assim como na Copa de Rugby em 96 – também vão além dos 90 minutos de bola.
Às 11h, a história começa a escrever seu mais novo capítulo. Não me chame para almoçar.
O Brasil pode até merecer conquistar seu sexto mundial, mas 2010 não é o momento. Mais uma Copa agora vulgarizaria a conquista que a Seleção de 82 não conseguiu. Fora que, se for para escolher, aposto que o país prefere ganhar em 2014.
Mas então: quem merece levantar o cobiçado globo dourado na África do Sul?
Argentina! Sem dúvida nenhuma.
Assim como a Itália em 2006 e o Brasil em 94, os hermanos amargam 24 anos sem ganhar uma Copa. E esta de 2010 seria (ou será) um enorme serviço histórico para o futebol.
Messi como protagonista de um mundial aos 22 anos é algo mágico de se imaginar. Seu futebol encanta os olhos. É poesia escrita com pé e bola. No momento, nenhum outro é capaz de dar beleza à história do futebol assim como ele. Isso já é um argumento que me basta para torcer pelos argentinos. Mas tem mais: Maradona pode até ter jogado menos que o Pelé (eu acredito piamente nisso), mas é muito mais ídolo de sua pátria do que o nosso rei. Enquanto Pelé é herói, ideal e perfeito, Maradona é anti-herói. É louco, dionisíaco, erra e desperta paixão em um povo. No nosso futebol, só Garrincha pode ser comparado ao Dom Diego.
Agora imagine este ídolo de carisma inigualável voltar a sua seleção como técnico, desacreditado, arriscando sua aura santa, mas consegue dar a volta por cima e novamente sagra a Argentina campeã do Mundo? Eu sinceramente não consigo imaginar nada mais bonito para esta Copa.
Se bem que há 4 anos eu não imaginava nada mais bonito que o Zidane levantando a taça, passando-a para o lado e enfim pendurando a chuteira. Infelizmente não foi o que aconteceu e o Cannavaro foi o craque (?) da competição. Que não se repita.